¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quinta-feira, junho 12, 2008
 
AFONSOS CELSOS REAGEM


De um azedo leitor, recebo:

Apesar de teu artigo ser um lixo, sempre desvalorizando a cultura e empreitos nacionais (e vangloriando os estrangeiros), e ainda criticando colegas de profissão, obrigado pela dica do Hurtigruten.

Gostou, é? De nada. Mas se você prefere o nacional, esqueça os empreitos nórdicos. Embarque no Martaxa Express, e pague, por uma pessoa, em um trem sem cabines nem leitos, mais do que pagam duas navegando com luxo e conforto em meio a uma paisagem irreal iluminada pelo sol da meia-noite.

Seguidamente, sou acusado de desvalorizar o nacional. Há patriotões que não aceitam a mínima crítica ao Brasil. Várias vezes, em mesas de bar, ouvi esta pergunta: por que então estás no Brasil? Ora, estou aqui porque tenho passaporte nacional, bem ou mal é meu país e acho suportável nele viver. Afinal, isto aqui pode ser bagunçado, mas não é nenhuma Cuba ou Uganda. O Brasil está semeado de ilhas onde se pode viver bem. Vivo numa delas. Então, dá para ir levando.

Mas estou aqui também porque não tenho condições de enfrentar o preço do metro quadrado em Paris ou Madri. Se as tivesse, adeus Pindorama. Pelo metro quadrado em São Paulo, um dos mais caros do país, pago um décimo do que pagaria em Paris. Então, o mais inteligente é ficar por aqui mesmo e visitar Paris de vez em quando. Quanto a criticar o Brasil, é direito que me reservo. Não vivemos em ditadura. A expressão é livre. Então, não vejo porque calar.

Em 72, era diferente. Eu voltava da Suécia e fui convidado para uma entrevista numa televisão gaúcha. Como o programa avançava e demoravam a chamar-me para o estúdio, perguntei o que estava acontecendo. Me apontaram com o dedo dois senhores. “Eles são da Polícia Federal e vetaram tua participação no programa”.

Fui falar com eles. Que história é essa? Não sou comunista, não fui expulso do país, saí porque quis, vou falar sobre uma viagem a um país distante. Que, aliás, nem é comunista. Por que o veto? Concordaram então com a entrevista. Com uma condição: eu não podia fazer comparação alguma da Suécia com o Brasil. Topei. De fato, não fiz comparação alguma. Quem as fez, foram os espectadores.

Ao longo de minha vida e de meu ofício, seguidamente tropeço com esses censores. Semprei critiquei, por exemplo, a política de preços praticada pela antiga Varig. Minhas viagens à Europa, sempre as fiz pela LAP, Aerolíneas Argentinas e até mesmo pela Pluna uruguaia. As passagens saíam por quase metade do preço cobrado pela Varig. No ano 2.000, minha Baixinha queria ir para a Terra do Fogo, aqui ao lado. Investiguei os preços nacionais. Saía mais de 1.500 dólares por pessoa. A Baixinha queria gelo, montanhas nevadas, frio. Bom, pensei, isto existe também no norte do planetinha. Pensei nos fjordes noruegueses, outro sonho dela. Pesquisei passagens. Encontrei uma, pela Swiss Air, São Paulo-Oslo-Estocolmo-São Paulo... por 669 dólares. Mais que o dobro de distância e menos que a metade do preço. Com direito a um sábado aprazível em Zurich. Ora, então é pela Swiss Air que eu vou. E foi assim que descobri a Hurtigruten. Não sem antes passar uma tarde magnífica, tomando cerveja junto ao Limmat, em um café sugestivamente chamado Panta Rei.

Um ano antes da falência da Varig, escrevi uma crônica intitulada “Morte à Varig”. Meu desejo era que afundasse mesmo, para dar lugar a empresas que democratizassem as viagens. Na Europa, hoje, você pode voar de Londres a Paris por dez euros. 27 reais. Compare este preço com o que se paga na ponte aérea Rio/São Paulo. Isto é, mesmo morta a Varig, ainda não se estabeleceu no país uma verdadeira concorrência. Minha crônica foi amaldiçoada pelos afonsocelsos da vida. E como falei da Varig, o afonsocelsimo que mais chiou era oriundo do Rio Grande do Sul. Claro que muitos tinham motivos para lamentar a morte da empresa. Eram aqueles que, por cargo ou ofício, nunca pagavam passagens. (E estes eram legião). Ou pessoas que tinham suas passagens sempre pagas pelos maridos ou pais. Assim, qualquer empresa é divina.

Como o ufanista que me escreve parece já hesitar em utilizar os empreitos tupiniquins, mais adiante falarei mais sobre a Hurtigruten.