¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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domingo, fevereiro 11, 2007
 
EN LA CALLE DEL VIEJO IDIOTA




Em Madri, estou hospedado no Hotel Inglés, onde me hospedo há mais de trinta anos. A localização é excepcional. Fica perto da Puerta del Sol, da Plaza Mayor, da Calle de Huertas, da Plaza Santa Ana, enfim, fica no centro geométrico da geografia etílica que mais me agrada na Europa. Fica também na Calle de Echegaray. José Echegaray, personagem polêmico de fins do século XIX, era engenheiro, matemático, dramaturgo, político... e recebeu o prêmio Nobel de Literatura em 1904.

Aqui entra na história um outro personagem não menos polêmico, Don Ramón del Valle-Inclán, dramaturgo, poeta e novelista, considerado um dos autores mais importantes da literatura espanhola do século XX. Era um personagem esperpentico. Esperpento foi um gênero literário por ele criado e que ficou ligado a seu nome. Se caracteriza pela estilização grotesca dos personagens e situações, detalhes grotescos e extravagantes, ao mesmo tempo que constitui uma crítica da sociedade espanhola de sua época. Certa vez, Don Ramón decidiu residir no México. E por que no México? - lhe perguntaram.

- Por que se escribe com equis (x).

Don Ramón perdera o braço esquerdo, em alguma estrepolia em Madri, que ele gostava de encher de mistério. No México, como convidado de honra a um espetáculo teatral, sentou-se à direita do presidente mexicano, Álvaro Obregón, que perdera seu braço direito nos combates com Pancho Villa. Ao final do espetáculo, não deu outra, Don Ramón pediu:

- Presidente, presteme su brazo para que aplaudamos.

Em outra ocasião, falando de suas conquistas amorosas, escreveu Don Ramón:

- Hicimos siete homenajes a Venus. Y repetimos la sétima.

Mas por que falo em Don Ramón? É porque residia na Calle Echegaray. E detestava o prêmio Nobel espanhol. Chamava-o de El Viejo Idiota e escrevia em seu endereço: La Calle del Viejo Idiota. Consta que as cartas chegavam.

Estou então na Calle del Viejo Idiota. No centro de todos os vinhos, lechales e cochinillos. Mas nem só por isso. Justo frente ao hotel, está o Venencia, tasca especializada em jerez. Venenciar é uma arte antiqüíssima, uma forma elegante de servir o vinho. O venenciador é um personagem que mais parece um toureiro, com seu traje de luces. Munido de uma haste com mais ou menos um metro de comprimento, com um pequeno cilindro na ponta, enfia o cilindro na barrica de jerez e o ergue ao alto com o braço esquerdo. No direito, tem um fino, que assim se chama o pequeno copo em que se despeja do alto a bebida, sem que se perca uma gota. É espetáculo que vale a pena ser visto.

Bom, no Venencia não há venenciador nenhum. Apenas o jerez. Em quatro versões: fino, oloroso, maderoso e manzanilla, a bebida dileta da Carmen, na tasca de Lilas Pastia.

J`irai danser la séguedille

et boire du manzanilla

j`irai chez mon ami Lilas Pastia.


É mais um corredor com um longo balcão, três ou quatro mesas e só. Uma espécie de picumã tornou as paredes e o teto pretos. No dia em que limparem aquela imundície secular, o Venencia perderá todo seu encanto. Os madrileños se aglomeram junto ao balcão e se entregam a uma algaravia em que o que importa é o falar, não o ouvir. Fim de noite, cria-se um ambiente surrealista, onde todo mundo fala e ninguém ouve.

Nos últimos anos em que por lá passei, um vira-lata de pelo negro e olhar triste interpelava os habitués. Em fim de noite, minha Baixinha já conversava com ele em espanhol. É que vínhamos de muitos vinhos e terminávamos os trabalhos com jerez. Depois de um fino, mais um oloroso, mais um maderoso, mais eventualmente um manzanilla em homenagem a Bizet, é claro que o planeta começa a girar. E quando o planetinha começa a girar, não adiante tentar segurar. Mas já estamos frente ao hotel.

E é por isso que não consigo abandonar la Calle del Viejo Idiota.